10/02/2016 às 22h19min - Atualizada em 10/02/2016 às 22h19min

O fim do carnaval no interior?

História e Saudades

A história do carnaval no Brasil iniciou-se no período colonial. Uma das primeiras manifestações carnavalescas foi o entrudo, uma festa de origem portuguesa que, na colônia, era praticada pelos escravos. Estes saíam pelas ruas com seus rostos pintados, jogando farinha e bolinhas de água de cheiro nas pessoas. Tais bolinhas nem sempre eram cheirosas. O entrudo era considerado ainda uma prática violenta e ofensiva, em razão dos ataques às pessoas com os materiais, mas era bastante popular.

Isso pode explicar o fato de as famílias mais abastadas não comemorarem junto aos escravos, ficando em suas casas. Porém, nesse espaço havia brincadeiras, e as jovens moças das famílias de reputação ficavam nas janelas jogando águas nos transeuntes.

Por volta de meados do século XIX, no Rio de Janeiro, a prática do entrudo passou a ser criminalizada, principalmente após uma campanha contra a manifestação popular veiculada pela imprensa. Enquanto o entrudo era reprimido nas ruas, a elite do Império criava os bailes de carnaval em clubes e teatros. No entrudo, não havia músicas, ao contrário dos bailes da capital imperial, onde eram tocadas principalmente as polcas.

A elite do Rio de Janeiro criaria ainda as sociedades, cuja primeira foi o Congresso das Sumidades Carnavalescas, que passou a desfilar nas ruas da cidade. Enquanto o entrudo era reprimido, a alta sociedade imperial tentava tomar as ruas.

Mas as camadas populares não desistiram de suas práticas carnavalescas. No final do século XIX, buscando adaptarem-se às tentativas de disciplinamento policial, foram criados os cordões e ranchos. Os primeiros incluíam a utilização da estética das procissões religiosas com manifestações populares, como a capoeira e os zé-pereiras, tocadores de grandes bumbos. Os ranchos eram cortejos praticados principalmente pelas pessoas de origem rural.

As marchinhas de carnaval surgiram também no século XIX, cujo nome originário mais conhecido é o de Chiquinha Gonzaga, bem como sua música O Abre-alas. O samba somente surgiria por volta da década de 1910, com a música Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida, tornando-se ao longo do tempo o legítimo representante musical do carnaval.

Na Bahia, os primeiros afoxés surgiram na virada do século XIX para o XX, com o objetivo de relembrar as tradições culturais africanas. Os primeiros afoxés foram o Embaixada Africana e os Pândegos da África. Por volta do mesmo período, o frevo passou a ser praticado no Recife, e o maracatu ganhou as ruas de Olinda.

Ao longo do século XX, o carnaval popularizou-se ainda mais no Brasil e conheceu uma diversidade de formas de realização, tanto entre a classe dominante como entre as classes populares. Por volta da década de 1910, os corsos surgiram, com os carros conversíveis da elite carioca desfilando pela avenida Central, atual avenida Rio Branco. Tal prática durou até por volta da década de 1930.

Entre as classes populares, surgiram as escolas de samba na década de 1920. As primeiras escolas teriam sido a Deixa Falar, que daria origem à escola Estácio de Sá, e a Vai como Pode, futura Portela. As escolas de samba eram o desenvolvimento dos cordões e ranchos. A primeira disputa entre as escolas ocorreu em 1929.

As marchinhas conviveram em notoriedade com o samba a partir da década de 1930. Uma das mais famosas marchinhas foi Os cabelos da mulata, de Lamartine Babo e os Irmãos Valença. Essa década seria conhecida como a era das marchinhas. Os desfiles das escolas de samba desenvolveram-se e foram obrigados a se enquadrar nas diretrizes do autoritarismo da Era Vargas. Os alvarás de funcionamento das escolas apareceram nessa década.

Em 1950, na cidade de Salvador, o trio elétrico surgiu após Dodô e Osmar utilizarem um antigo caminhão para colocar em sua caçamba instrumentos musicais por eles tocados e amplificados por alto-falante, desfilando pelas ruas da cidade. Eles fizeram um enorme sucesso. Mas o nome somente seria utilizado um ano depois, quando Temistócles Aragão foi convidado pelos dois. Um novo veículo foi utilizado, com a inscrição “Trio Elétrico” na lateral.

O trio elétrico conheceria transformação em 1979, quando Morais Moreira adicionou o batuque dos afoxés à composição. Novo sucesso foi dado aos trios elétricos, que passaram a ser adotados em várias partes do Brasil.

As escolas de samba e o carnaval carioca passaram a se tornar uma importante atividade comercial a partir da década de 1960. Empresários do jogo do bicho e de outras atividades empresariais legais começaram a investir na tradição cultural. A Prefeitura do Rio de Janeiro passou a colocar arquibancadas na avenida Rio Branco e a cobrar ingresso para ver o desfile. Em São Paulo, também houve o desenvolvimento do desfile de escolas de samba a partir desse período.

Em 1984, foi criada no Rio de Janeiro a Passarela do Samba, ou Sambódromo, sob o mandato do ex-governador Leonel Brizola. Com um desenho arquitetônico realizado por Oscar Niemeyer, a edificação passou a ser um dos principais símbolos do carnaval brasileiro.

O carnaval, além de ser uma tradição cultural brasileira, passou a ser um lucrativo negócio do ramo turístico e do entretenimento. Milhões de turistas dirigem-se ao país na época de realização dessa festa, e bilhões de reais são movimentados na produção e consumo dessa mercadoria cultural.

Mas, e nós ? Quem levou o nosso carnaval?

Mais do que festa; folclore, tradição e o necessário festejar. E se é mesmo verdade que todo carnaval tem seu fim, o da nossa região parece estar moribundo.

Com exceção dos municípios de Tibagi e Tomazina que mantem as suas tradições, outras cidades lutam para não apagar da memoria uma das festas mais populares deste País. Nova Santa Barbara e Santo Antônio do Paraiso são um exemplo disto.

A violência entre a juventude, principalmente, aquelas que estão envolvidas no mundo da drogas e o consumo excessivo de álcool, faz com que o Poder Judiciário enrijeça as regras, além da consequente falta de recursos – políticos em especial, e as tradições são deixadas de lado.

Neste ano, vários municípios sob o manto da queda brusca de arrecadação e a presença do Aedes Aegipty (Dengue, Chicungunya, Zikavirus, microcefalia, etc.; e das chuvas torrenciais que precipitaram na região; vários shows já previamente contratados foram cancelados.

Gerações passam e me recordo saudosista dos bailes carnavalescos realizados no Creuf – Figueira, Clube da Cambui, Ipê Clube de Ibaiti, antigo CERC em Curiuva, e tantos outros que levavam as famílias para dentro dos salões e todos se divertiam na tradução mais literal da palavra. Lembro-me de alguns blocos que disputavam o titulo de mais animado do carnaval: Em Figueira, tinha o Hic, Pikão, Raio de Luz, dentre outros. As casas eventualmente vazias próxima dos clubes, eram alugadas pelos blocos para concentração e confecção das fantasias. Quanta saudade.

Da maneira que se tenta atualmente, o dito carnaval popular não sairá de um palco meio boca na praça. Aqueles que adoram falar dos carnavais de suas respectivas épocas não incentivam os do presente.

Há quem diga que o carnaval, muito comportado até os anos 1970, passou a ser mais concorrido depois dos anos 1980, atingindo o auge nos anos 1990, com a formação dos blocos de amigos. Os salões ficavam repletos de foliões nas cinco noites e mais duas matinês, no domingo e na terça-feira.

Salvem-nos, porque hoje só vejo quarta de cinzas. Não sei onde foi parar meu bloco. Quem levou meu carnaval?

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