21/12/2015 às 17h37min - Atualizada em 21/12/2015 às 17h37min

O Fogo de 63

Há 50 anos, o Paraná ardia em chamas

Osmario Martins Ribas

or Osmário Martins Ribas, testemunha ocular da história

Estava iniciando o verão daquele ano de 1963, o Paraná sofria com a terrível seca, os rios tinham baixado muito. O Tibagi, podia ser atravessado pulando pelas pedras. O Iapó, na cidade de Castro, se via o fundo, podia-se passar a pé. Essa seca já vinha de meses sem chuvas. Não havia nuvens no céu, o inverno tinha sido rigoroso naquele ano seco.

Morava nessa época já em ibaiti, meu pai (Abrilino) se obrigou a voltar para o sítio, após prejuízo financeiro em Castro, junto as empresas de Léo Zappe, levando meu pai de uma situação até aquela época cômoda, para grandes dificuldades financeiras. Eu havia deixado o quartel, onde servi o exército no Rio de Janeiro no ano de 1962. Face às dificuldades financeiras de meu pai, me vi obrigado a colaborar com a familia e voltei a morar no sítio onde tinhamos uma boa  plantação de café. Dessa forma, íamos de vez em quando a Castro, onde tínhamos residência fixa desde 1954. Nessas idas e vindas, foi que ocorreu o que passo a narrar:

Saímos de castro por volta de 7 horas daquela manhã do mês de agosto, naquele tempo a estrada de Castro a Piraí do Sul era cascalhada com cascalho fino. A partir de Pirai até Londrina era estrada de pedra. De Piraí até a entrada da Ventania, na encruzilhada do Caratuva, levava-se no mínimo três horas, isso quando não furava pneus que as pedras cortavam. Na estrada do Caratuva havia bancos de areia, algumas vezes ali ficamos horas e horas parado a espera de alguém que pudesse nos arrastar. Por essa razão, meu pai comprou uma Rural Willys, a primeira que chegou em Ponta Grossa no ano de 1957, quando se fabricaram os primeiros carros feitos no Brasil. Assim sendo, todos os anos meu pai trocava por carro zero.

Naquele agosto de 1963, logo que passamos Piraí começamos a ver a fumaça que se erguia nos Campos Gerais, fomos subindo a Serra do Piraí já com muita fumaça na estrada e nos morros e vales. Aumentamos a velocidade do carro e às 10:30h, chegamos no pinhal, era uma área mais ou menos de uns 20 kms de pinheiros  dos dois lados da estrada bem estreita. Quando ali chegamos havia alguns carros parados e inclusive caminhões próprios para carregar toras. Estavam conversando e todos apavorados, o fogo lambia com suas labaredas a estrada, pulando de um lado para outro, grimpas que caíam, haviamos já percorridos mais de 15 kms dentro do pinhal, quando deparamos com aquelas pessoas. Ali chegando vimos que havia fogo onde havíamos a pouco passado, assim ficamos entre os dois fogos. As pessoas não sabiam que rumo tomar, para trás era arriscado voltar e para frente ninguém se encorajava, foi aí que meu pai me disse: "Você consegue dirigir com a cabeça para fora? temos mais ou menos 5 kms pela frente, o que acha?" Tinha eu vinte anos, voltado recente do quartel no Rio no governo do João Goulart, foi um ano muito difícil para o pais, até que veio a revolução de 1964. Voltando ao pinhal, perguntei às outras pessoas o que achavam da idéia de tocar para a frente, ninguém se animou. Meu pai homem decidido, disse "nós vamos em frente, seja o que Deus quiser."

E ai começamos a epopéia, quase nada se via na estrada, grimpas e pequenos galhos caiam em cima da Rural, eu com a cabeça para fora dirigindo com uma mão em alta velocidade e assimilando aquela fumação que chegava a me afogar, meu pai dizia "não pare, toque, vamos em frente", e assim fomos dirigindo naquela maior dificuldade por mim já enfrentada. Não sei precisar quanto tempo levei para fazer aqueles quilômetros que restavam, só sei  que levou uma eternidade. Pensava que não iria conseguir, mas a Rural era valente e com muito sacrifício conseguimos sair daquela fornalha. O carro ficou com a lataria bastante danificada na pintura. Não soubemos o que aconteceu com aqueles que ficaram. Notícias havia que muitos morreram naquela estrada. Ibaiti, Curiúva, e todas as cidades do Norte Pioneiro e Campos Gerais ficaram secas, não havia pasto para os animais, chegou a queimar até palmeiras. Os animais morreram quase todos. O que não havia queimado com as geadas de junho e julho de 1963, o fogo do mês de agosto terminou de queimar. Esse fogo se estendeu por quase todos os Estados do Sul e Centro-Oeste do Brasil. Ninguém sabe onde começou. Só sei que foi uma das maiores tragédias que vimos naquele tempos. Foi o final do ano de 1963 e 1964, ano de muita miséria no campo e nas cidades, somente a partir de 1965 que houve recuperação da economia.

Confira abaixo reportagem da Gazeta do Povo sobre o fogo de 1963

Quando o Paraná virou um inferno
Em 1963, quando o “demônio reinou”, um incêndio devastador atingiu 128 cidades do estado e matou 110 pessoas

Há exatamente 50 anos, o Paraná ardia em chamas. Uma série de incêndios florestais entre os meses de agosto e setembro de 1963 causou uma tragédia histórica – 110 pessoas morreram e 10% do território do estado foi consumido pelas chamas. Foi o pior incêndio registrado no Brasil e um dos maiores do mundo. O cenário foi descrito na época pelo trabalhador rural João Arruda, uma das centenas de vítimas do fogo, como o “ano da penitência”. “O demônio reinou por aqui e trouxe todo o fogo do inferno com ele”, disse, em um relatório elaborado pelo governo do estado.

O flagelo foi resultado da combinação de baixas temperaturas com uma estiagem prolongada. Os campos estavam secos em razão das fortes geadas daquele ano. Como era de costume, os lavradores faziam pequenas queimadas para limpar o terreno. Não demorou muito para o fogo avançar sem controle.

Ao todo, 128 cidades das Regiões Norte, Central e dos Campos Gerais foram afetadas. Dois milhões de hectares foram completamente devastados ao longo de dois meses. “Foram 20 mil hectares de plantações, 500 mil de florestas nativas e 1,5 milhão de campos e matas secundárias”, relata o pesquisador Antônio Carlos Batista, professor de Engenharia Flo­restal da Universidade Fe­deral do Paraná.

Aproximadamente 8 mil imóveis, entre casas, galpões e silos, viraram cinzas. Cerca de 5,7 mil famílias – a grande maioria formada por trabalhadores rurais – ficaram desabrigadas. Tratores, equipamentos agrícolas e incontáveis veículos foram atingidos pelo incêndio. Em 14 de agosto de 1963 foram noticiados os primei­ros focos de incêndios em Guaravera, Paiquerê e Ta­ma­rana, que eram distritos de Londrina. As chamas se estenderam a Sengés e Jaguariaíva, o que provocou a perda de pelo menos 15 milhões de araucárias. O relatório do governo estadual da época revelou que Ortigueira teve 90% da área queimada. Mais de 70% das reservas florestais das Indústrias Klabin de Papel e Celulose, cultivadas em uma fazenda de Tibagi, se perderam. Só nesse local, 200 milhões de araucárias foram destruídas. As perdas em todo o estado eram calculadas em 200 milhões de cruzeiros. A ajuda para combater o incêndio veio de outros estados, com o fornecimento de helicópteros e aviões. “Não tinha muito que fazer”, afirma Batista. O fim do inferno paranaense acabou naturalmente. “O fogo cessou só com a volta da chuva”, conta o professor.

Outros incêndios e os impactos das chamas de 1963

O incêndio florestal registrado no Paraná há 50 anos é um dos maiores e com consequências mais drásticas em todo o mundo. Segundo o livro Incêndios Florestais – Controle, Efeitos e uso do Fogo, escrito pelos pesquisadores Ronaldo Via­na Soares e Antônio Car­los Batista, o incêndio de Pesthigo, nos Estados Unidos, em 1871, foi um dos mais graves já registrados, matando 1,5 mil pessoas. Nos grandes incêndios de Idaho, também nos Estados Unidos, 500 mil hectares foram devastados em 1933.

“O incêndio de 1963 foi não só o maior e mais destrutivo já registrado no Brasil como um dos maiores e mais destrutivos do mundo. Felizmente, no Brasil, nenhum outro chegou perto desse. O segundo maior em extensão ocorreu em Roraima, em 1998, atingindo cerca de 1,5 milhão de hectares”, afirma o pesquisador Viana Soares.

Segundo ele, no quesito de mortes, a tragédia no Pa­raná foi a segunda pior do mundo – perdendo para o de Pesthigo, no estado de Wisconsin. No Brasil, o segun­do incêndio com maior número de vítimas foi registrado no Parque Estadual do Rio Doce, Minas Gerais, em 1967, que matou 12 pessoas.

Impactos

A partir da tragédia de 1963, Batista revela que começou a se trabalhar para evitar outras calamidades. “Foi preparado um sistema de alerta, que monitora e avisa sobre os perigos de incêndios florestais”, conta.

Segundo ele, não se pode afirmar que nunca mais irá ocorrer um incêndio como aquele. “Existem formas de tentar prevenir e controlar as chamas. Mas não há estrutura suficiente para cessar imediatamente um fogo do porte do de 1963”, ressalta.

O pesquisador Soares concorda. “Até hoje não existe no mundo tecnologia capaz de combater incêndios de grande intensidade. Nesse caso, somente mudanças climáticas podem resolver o problema.” Foi o que aconteceu no Paraná quando a chuva chegou.

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  • 16/03/2016 às 09h35min

    De um morador de Ortigueira ao comentar os fogos de 63: "O RIO TIBAGI NÃO SERVIU DE ACERO".

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